Colocar telas na frente dos filhos tem mais a ver com o estresse dos pais do que com outros fatores
Criança brinca com celular em Ribeirão Preto, SP telas ansiedade Reprodução/EPTV São 18h, depois de um dia inteiro de trabalho. Um pai ou uma mãe cansado ...
Criança brinca com celular em Ribeirão Preto, SP telas ansiedade Reprodução/EPTV São 18h, depois de um dia inteiro de trabalho. Um pai ou uma mãe cansado tenta preparar o jantar e arrumar a cozinha antes que a rotina noturna das crianças saia do controle. Uma pequena discussão entre os filhos rapidamente se transforma em gritos e empurrões. O responsável também se lembra de repente de um e-mail do chefe sobre um prazo que se aproxima. Silêncio e uma sensação de controle estão ao alcance da mão. Basta colocar um tablet nas mãos de cada criança, sabendo que isso fará com que elas parem de brigar rapidamente. Sou doutorando em psicologia clínica infantil e do adolescente. Minha nova pesquisa sugere que a decisão de um pai ou uma mãe de recorrer ao tablet em momentos de estresse depende menos do comportamento da criança e mais da capacidade do adulto de lidar com o estresse de uma determinada situação. Agora no g1 Estresse parental e tempo de tela As telas se tornaram uma parte quase integral da infância e da criação dos filhos. Quase todas as crianças nos Estados Unidos usam ou veem telas todos os dias, e 42% das crianças de 2 a 4 anos têm seu próprio tablet. A American Pediatric Association oferece diferentes recomendações de tempo de tela para as crianças de acordo com a idade. A organização recomenda que os pais não permitam que crianças de 18 meses a 2 anos usem mídias sozinhas e que limitem o uso de mídias por crianças de 2 a 5 anos a menos de uma hora por dia. A maioria das crianças pequenas não segue essas recomendações. Não é de surpreender, portanto, que administrar o uso de telas pelas crianças possa ser muito estressante para os pais. Criar um filho envolve fatores de estresse específicos, desde pequenos desafios cotidianos, como conseguir tirar as crianças de casa a tempo para a escola, até a grande tarefa de criar um ser humano funcional, feliz e saudável. Esses fatores de estresse relacionados à tarefa de ser pai ou mãe são chamados pelos pesquisadores de estresse parental. Quase 70% dos pais entrevistados em uma pesquisa nacional de 2020 disseram que administrar o uso de tecnologia e das redes sociais pelos filhos é uma das principais fontes de estresse na criação das crianças. Embora as pesquisas sobre o uso de telas pelas crianças estejam crescendo, a maior parte delas tem se concentrado em como o comportamento e o temperamento da criança influenciam o tempo que ela passa diante das telas. Muito menos atenção, porém, tem sido dada ao papel dos pais no uso de mídias pelas crianças. Em 2024, o cirurgião-geral dos Estados Unidos classificou o estresse parental como uma questão de saúde pública. Pesquisadores, profissionais de saúde e formuladores de políticas públicas foram chamados a agir para compreender melhor as necessidades dos pais, com o objetivo de apoiá-los na criação dos filhos e na manutenção de uma família saudável. O foco do estudo Todos os dias, os responsáveis tomam decisões grandes e pequenas sobre o uso de mídias e telas pelos filhos. Os pesquisadores chamam essas decisões de estratégias parentais relacionadas às mídias de tela. Por exemplo, os responsáveis podem decidir que as crianças podem usar um smartphone ou tablet para falar com outros familiares ou durante uma viagem. Eles também costumam estabelecer limites para o tempo que os filhos podem passar diante das telas a cada dia ou semana. Minha pesquisa de 2025 teve como objetivo analisar a relação entre o estresse dos pais e suas estratégias parentais relacionadas ao uso de telas. Em uma pesquisa on-line nacional com 822 pais de crianças de 4 a 8 anos, os adultos avaliaram seus níveis de estresse parental, os problemas de comportamento dos filhos e a maneira como administravam o uso de telas pelas crianças. Isso incluía a frequência com que estabeleciam limites para o tempo de tela e a frequência com que usavam telas para ajudar a controlar o comportamento dos filhos. Analisamos três tipos distintos de estresse parental: o estresse que os pais sentem por motivos próprios; o estresse relacionado à relação com o filho; e o estresse provocado pelo comportamento da criança, que pode ser difícil de administrar. Criança no celular Canva Nossos resultados sugerem que os pais que apresentavam níveis elevados de estresse por causa de dificuldades e experiências pessoais estabeleciam menos limites para o uso de telas pelos filhos, independentemente do comportamento da criança. Pais que sentiam estresse por causa do temperamento ou do comportamento desafiador dos filhos também tinham maior probabilidade de entregar uma tela à criança para controlar ou evitar esse comportamento. Por fim, pais que sentiam estresse relacionado à relação com os filhos não tinham maior probabilidade de dar uma tela à criança. Nossos resultados continuaram válidos mesmo depois que levamos em conta o comportamento real da criança em nossa análise. Em outras palavras, não era apenas a maneira como a criança estava se comportando, mas o quanto o responsável sentia que era difícil lidar com o comportamento dela naquele momento. Transição para um novo ano letivo É provável que a maioria das famílias enfrente algum nível de estresse ao retomar as rotinas mais intensas de um novo ano letivo. Para alguns responsáveis, pode ser útil criar um plano de ação para apoiar o bem-estar da família e organizar as rotinas relacionadas ao uso de telas. Uma possibilidade é criar um plano familiar para o uso de mídias, decidindo, por exemplo, se serão estabelecidos espaços ou horários sem telas ao longo do dia. Também é possível estabelecer outros limites, como não usar telas durante as refeições ou antes de dormir. Os pais também podem limitar quais aplicativos e programas on-line os filhos podem usar. Sempre que possível, as crianças podem participar da elaboração do plano familiar para o uso de mídias. Juntas, essas estratégias podem ajudar a família a enfrentar o próximo momento das 18h em que o jantar não está pronto e o barulho não para. Em vez de ter de tomar uma decisão às pressas naquele momento, uma decisão tomada previamente, em um período mais tranquilo, pode ajudar toda a família. *Enid A. Moreira - Doutoranda em Psicologia Clínica Infantil e do Adolescente, Florida International University *Daniel M. Bagner - Professor de Psicologia e diretor de formação clínica, Florida International University *Shayl Griffith - Professora associada do Departamento de Aconselhamento, Recreação e Psicologia Escolar e do FIU Center for Children and Families, Florida International University **Este texto foi publicado originalmente em inglês.